João Lourenço, que discursou perante os deputados envergando um “burnous”, manto tradicional da Argélia que marca o estatuto social em ocasiões formais e especiais, encontrou-se hoje de manhã, no segundo dia da sua visita de Estado a Argel, com o primeiro-ministro da República Argelina Democrática e Popular, Sifi Ghrieb, com o qual abordou a necessidade de intensificar o nível das relações de cooperação entre os dois países.
No discurso, João Lourenço enfatizou os laços históricos entre os dois países e o apoio da Argélia à luta contra a dominação colonial portuguesa e ao reconhecimento de Angola como Estado independente.
“Olhamos para a Argélia como um país irmão, um aliado seguro e um parceiro leal com o qual compartilhamos um amplo leque de valores”, afirmou, destacando que ambos os povos enfrentaram a violência extrema do sistema político opressor, e evocou os massacres do 08 de Maio de 1945.
“Somos todos convidados a lutar contra a tendência de se adulterar a História procurando branquear os horrores do colonialismo”, salientou.
Apontou a convergência de pontos de vista que Angola e a Argélia partilham sobre temas como as alterações climáticas, a reforma do Conselho de Segurança das Nações Unidas e as guerras, criticando “a lógica de quem tem mais força” e “impõe a terceiros a sua vontade e interesses contra todas as normas que regem as relações internacionais”.
Uma “prática perigosa e suscetível de conduzir o mundo para uma conflagração global com consequências dramáticas”, vincou.
Para João Lourenço, este desenlace pode ser evitado se a África, com as matérias-primas críticas de que dispõe, “deixar claro que os grandes atores mundiais podem ter acesso aos recursos de que necessitam na base de parcerias estabelecidas de acordo com as regras que regulam o comércio internacional”, apelando a que os dois países defendam a ideia de que o desenvolvimento de África começa pela gestão rigorosa dos recursos de que dispõem.
Essas matérias-primas críticas “devem servir os objetivos de desenvolvimento da Humanidade”, prosseguiu, repudiando a prática de ignorar o primado do Direito Internacional.
“Reside neste tipo de posturas a grande causa das guerras que prevalecem entre a Ucrânia e a Rússia, no Médio Oriente entre Israel e a Palestina, no Golfo Pérsico e até mesmo em África, onde os conflitos no Sudão, na República Democrática do Congo, na Líbia, na Somália e no Mali se inserem na fuga ao diálogo e às soluções políticas e diplomáticas para a resolução de tensões e conflitos a nível mundial”, apontou.
Saudou a ajuda argelina na construção da Sonangol e realçou a importância de alargar o leque da cooperação bilateral para os setores estratégicos dos transportes, das infraestruturas, do ensino superior, da investigação científica e do desenvolvimento tecnológico.
“Louvamos a política comercial pan-africanista da Argélia, que prioriza fontes de aprovisionamento africanas, em termos de aquisição de produtos manufaturados”, a par da formação de quadros, destacou, elogiando o facto de ter sido colocado à disposição da juventude africana um total de 8.000 bolsas de estudo em várias áreas do saber, de que Angola também beneficia.
Na véspera, João Lourenço encontrou-se com o seu homólogo, Abdelmajid Tebboune, lembrando que os primeiros engenheiros e quadros do setor energético foram formados na Argélia. “Alguns deles, ainda hoje fazem parte dos quadros da nossa companhia petrolífera, a Sonangol, ao nível mesmo da gestão da própria companhia”, realçou.
O chefe de Estado angolano convidou o Presidente argelino a efetuar também uma visita de Estado a Angola.
Abdelmajid Tebboune, por seu turno, anunciou para julho a abertura de uma linha aérea entre Argel e Luanda.
No primeiro dia, os dois países assinaram 11 acordos em áreas como a promoção do investimento e exportações, a formação profissional, os recursos hídricos, os correios e telecomunicações, a saúde veterinária, o ensino superior e investigação científica, a indústria farmacêutica, os serviços aéreos, a indústria mineira, a academia diplomática e o petróleo e gás.