Empresário Valdomiro Dondo volta a ter protagonismo em Angola

Post by: 30 Abril, 2024

O empresário brasileiro de origem japonesa chegou a Angola em 1987 e desde então constituiu um grupo com interesses em cerca de 20 empresas. A entrada no capital da Mota-engil Angola é vista como um movimento de reaproximação ao poder.

A entrada de Valdomiro Minoru Dondo no capital social da Mota-Engil Angola tem um significado que extravasa o plano estritamente empresarial. O seu reaparecimento em negócios proeminentes pode igualmente ser um sinal de que Minoru Dondo restabeleceu relações com o poder instalado no Palácio da Cidade Alta, residência oficial do Presidente da República de Angola.

O empresário angolano-brasileiro de origem japonesa, cujo universo empresarial está integrado no grupo Valdomiro Minoru Dondo ( VMD) comprou a posição de 29% da Mota-engil que estava na posse do Banco Millennium Atlântico, tal como o Negócios avançou na sua edição de 20 de março último.

Esta transação não foi oficialmente comunicada por qualquer das partes envolvidas, o Millenium Atlântico e o grupo VMD, e o facto de ter sido tornada pública causou mesmo algum incómodo, sabe o Negócios.

A Mota-engil Angola foi constituída em fevereiro de 2010. A construtora portuguesa ficou com a maioria do capital, a Sonangol com 20% e o Millenium Atlântico, através da Finicapital e da Globalpactum, com 29%.

No início deste ano, a Mota-Engil assinou três novos contratos em Angola, num valor de aproximadamente 875 milhões de euros, um para a construção da marginal da Corimba, bem como para a construção de duas mil casas sociais, outro para a execução de quatro nós rodoviários e do Corredor de Cambanda, e um último para a reabilitação das infraestruturas gerais da urbanização Nova Vida, no município do Kilamba Kiaxi em Luanda. A construtora portuguesa está também envolvida no consórcio Lobito Atlantic Railway (LAR), do qual fazem igualmente parte a suíça Trafigura e a belga Vecturis, o qual ganhou o concurso para operação do corredor ferroviário do Lobito.

O site Maka Angola, em abril de 2022, lembrava que Minoru Dondo “tinha negócios transversais com uma longa lista dos principais membros da anterior nomenclatura, desde membros da família presidencial até generais, ministros, deputados, etc., muitos dos quais estão a contas com a justiça”. O artigo, assinado por Rafael Marques de Morais acrescentava que “só do Instituto Nacional de Segurança Social (INSS), as empresas de Minoru Dondo terão recebido mais de dois mil milhões de dólares em esquemas indiciadores de corrupção. Minoru Dondo por conjetura terá estabelecido veículos de saque, com o INSS, em projetos imobiliários, alguns dos quais foram alvo de arrestos, mas sem qualquer belisco legal para os seus negócios e a sua imagem”.

Grupo sem qualquer processo judicial

“Terá sido o único empresário de relevo que esteve envolvido com o antigo regime e parece agora ter conseguido fazer a transição”, afirma ao Negócios fonte conhecedora da atividade do grupo de Valdomiro Minoru Dondo, o qual detém participações e investimentos em mais de 20 empresas, entre elas o Banco de Investimento Rural, o Banco Comercial do Huambo, o Belas Shopping, o Luanda Medical Center e a Macon Transportes.

Em fevereiro de 2021, a Pangea Risk, consultora especializada em análise de informação para gestão de risco sobre negócios em África e no Médio Oriente, identificou o empresário como uma das figuras que estaria a ser investigado por procuradores norte-americanos por eventual violação das leis deste país. A realidade é que, até ao momento, essa eventual ação não produziu resultados. “Alguma empresa do grupo VMD foi alvo de um processo judicial no âmbito dos crimes económicos? Nenhuma, felizmente”, responde o empresário numa entrevista publicada a 11 de abril deste ano no site do próprio grupo.

Nesta entrevista, Valdomiro Dondo não faz nenhuma referência à aquisição de participação de 29% na Mota-engil Angola, mas elabora sobre a importância do corredor do Lobito, na qual a construtora está envolvida. “Angola vai continuar a reforçar a sua importância enquanto país e enquanto mercado na África Austral. Veja-se a aposta americana no país e a importância atribuída ao Corredor do Lobito e ao papel que pode e deve desempenhar nas ligações comerciais intercontinentais e no estímulo ao desenvolvimento das economias de Angola, da República do Congo e da Zâmbia, assim como aos seus empresários. Atente-se no facto de o secretário de Estado norte-americano, Antony Blinken, ter incluído Angola no seu último périplo africano, realizado em janeiro passado, e se ter reunido não só com o Presidente da República como também com as empresas de capital americano e com as que estão diretamente ligadas aos projetos estruturantes do país”.

Jornal de Negócios

 
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Last modified on Terça, 30 Abril 2024 18:52
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