Pelo menos 32 perfis genéticos foram identificados, nos últimos dias, nas mais de 600 ossadas das vitimas do 27 de Maio de 1977 Identificadas numa vala comum encontrada no Cemitério da Mulemba, em Luanda, anunciaram hoje as autoridades.
Segundo Manuel Halaiwa, membro da Civicop, dos 32 perfis genéticos ora identificados laboratorialmente, 21 correspondem ao género feminino, mas, até ao momento, nenhum familiar reclama por vítimas do sexo feminino, o que constitui preocupação da comissão.
A "grande preocupação, neste momento, da Civicop está ligada a estes perfis femininos [identificados) que precisam de ser comparados com amostras biológicas de familiares, o que sucede é que temos apenas reclamação de pessoas que estão à procura do progenitor, do tio, do irmão", disse.
"E não estamos a ter reclamações de pessoas que buscam pelo género feminino, e isto é uma preocupação", afirmou hoje o responsável em conferência de imprensa, em Luanda, exortando os cidadãos familiares das vitimas dos conflitos ocorridos em Angola a doarem às suas amostras.
Pediu aos cidadãos que tenham informações ou que perderam os seus entes queridos, na sequência do 27 de Maio e de conflitos que ocorrerem no país entre novembro de 1975 e abril de 2002, sobretudo mulheres, a
dirigirem-se aos laboratórios da Civicop.
"Porque conseguimos esses perfis femininos e é preciso que os familiares doen amostras genéticas para fazer a comparação (...) está é a nossa grande preocupação", insistiu.
Halaiwa, que é também diretor de comunicação institucional da direção nacional do Serviço de Investigação Criminal, considerou igualmente que o êxito das ações desenvolvidas pela Civicop depende da participação de todos os cidadãos.
Assegurou que a Civicop, criada há dois anos pelo Presidente angolano João Lourenço, "está determinada acolher todas as preocupações de pessoas que tenham interesse de encontrar os seus entes [vítimas dos conflitos], porque estamos a sarar feridas (...)".
Um total 625 ossadas de vítimas dos acontecimentos ocorridos há quase meio século foram descobertas numa vala comum no Cemitério da Mulemba, em maio passado, e a Civicop entregou aos familiares, no mesmo mês, as primeiras 10 urnas com os restos mortais.
Manuel Halaiwa deu conta igualmente que do trabalho realizado, nos últimos dias, mais 10 vítimas recentemente retiradas da referida vala comum foram identificadas e o ato formal de entrega destas, aos familiares, acontece na próxima sexta-feira na Centralidade do Kilamba, em Luanda.
Por sua vez, o médico legista Aurélio Rodrigues abordou o processo de identificação das vítimas, observando que a sua área tem a missão de exumar, identificar, embalar, rotular e selar as embalagens para entrega ao Laboratório Central de Criminalística (LCC) de Luanda para extração de perfis genéticos,
O médico pediu também os familiares das vítimas a fazerem doação de amostras junto do LCC e do laboratório instalado no denominado "Parque do Papa", na Centralidade do Kilamba.
"A doação de amostra é um processo simples e não moroso (...), é um processo nobre", indicou.
O 27 de Maio de 1977 é a data de uma alegada tentativa de golpe de Estado, supostamente liderada por Nito Alves e que foi violentamente reprimida pelo Governo de Agostinho Neto, primeiro Presidente angolano, com ajuda das tropas cubanas então presentes em Angola.
A Amnistia Internacional estima que pelo menos 30.000 pessoas foram assassinadas na repressão que tocou quase todas as famílias angolanas.





