"O financiamento era para comprar o ativo. E talvez vedar o ativo e fazer alguma coisa relacionada com isso. O investimento [no desenvolvimento do terreno] teria de ser feito por mim", assegurou Eugénio Neto, de 67 anos, ouvido como testemunha no julgamento do processo BESA, em Lisboa.
Segundo o gestor de empresas, o seu objetivo seria angariar terceiros para fazerem esse investimento, o que, reconheceu, nunca aconteceu.
"Os investidores chegavam, mas havia uma morosidade muito grande na legalização desses ativos nos ministérios", lamentou Eugénio Neto, frisando que, ultrapassado o período de um, dois ou três anos para o investimento, o BESA lhe começava a exigir o pagamento dos juros devidos pelo financiamento.
Embora os negócios remontem a 2009, 2010 e 2011, a dívida que se foi acumulando só terá sido resolvida em 2017 ou 2018, com a celebração entre o empresário e o Banco Económico, sucessor do BESA, de um acordo de dação em pagamento com entrega de ativos, precisou a testemunha.
De acordo com a acusação do Ministério Público, a maioria dos 1,5 mil milhões de dólares (cerca de 1,3 mil milhões de euros, à taxa de câmbio atual) emprestado a sociedades detidas por Eugénio Neto não tiveram finalidades produtivas.
Os ex-presidentes do BES, Ricardo Salgado, e do BESA, Álvaro Sobrinho, são dois dos cinco arguidos que estão a ser julgados no processo, que incide, sobretudo, sobre o alegado desvio de fundos entre 2007 e 2012 de financiamentos do BES ao BESA em linhas de crédito do Mercado Monetário Internacional e em descoberto bancário.
Em geral, os arguidos respondem por abuso de confiança, branqueamento e burla e negam a prática dos crimes.
O julgamento decorre desde 05 de maio de 2025, no Tribunal Central Criminal de Lisboa.
O BES faliu no verão de 2014 e o BESA foi liquidado em outubro seguinte.