Adalberto Costa Júnior, que falava na abertura do painel sobre “50 anos da indústria petrolífera pós-independência: bênção ou maldição”, enquadrado no Angola Economic Fórum (AEF2025), que termina hoje em Luanda, considerou que “desde 1975 o petróleo é a tábua de salvação económica” do país, mas foi também o gerador de mais desigualdade e de corrupção.
O petróleo financiou a construção do Estado, que permitiu erguer os primeiros hospitais e escolas pós-coloniais, afirmou, e “manteve acesa a chama de um país que nascia entre gigantescos desafios”.
“Foi uma bênção incontestável que deu musculatura económica e um lugar na mesa global”, frisou o presidente da União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA, maior partido na oposição”, realçando que este recurso concedeu ao país uma relevância geopolítica imediata.
Considerou, no entanto, na sua intervenção, que neste percurso o país também veio “de um lugar de contradições".
“A mesma riqueza que nos deu força, alimentou um centralismo económico assustador. O petróleo, que devia ser o sangue a irrigar todo o corpo da nação, tornou-se por vezes um rio que corria por um único leito, aprofundando o abismo da desigualdade”, lamentou.
Para o líder da UNITA, a "maldição dos recursos" em Angola mostrou a sua face, nomeadamente uma economia voltada para fora, vulnerável ao mercado internacional e uma corrupção endémica que desviou riqueza que era de todos”.
“E, de forma mais cruel, a paradoxal realidade de que quanto mais barris exportávamos, mais parecíamos importar pobreza para uma larga faixa da nossa população, ou seja, criou-se uma economia de renda, onde o esforço produtivo interno foi, por vezes, negligenciado em favor da fácil captação de receitas fiscais externas”, criticou.
“O setor não petrolífero, particularmente a agricultura, definhou, tornando-nos paradoxalmente um país exportador de crude, mas importador massivo de alimentos”, realçou.
Segundo Costa Júnior, o centralismo económico “exacerbou as assimetrias regionais e sociais” de Angola, considerando que enquanto Luanda (capital do país) se transformava num canteiro de obras, muitas vezes faraónicas, vastas extensões do país permaneciam à margem do desenvolvimento”.
“O fosso entre uma pequena elite beneficiária da riqueza e uma grande maioria da população aprofundou-se, alimentando um sentimento de injustiça social e frustração”, disse.
O presidente da UNITA afirmou que, com a exploração petrolífera, no decurso de meio século de independência, a “corrupção no país encontrou no fluxo abundante de dólares petroleiros um terreno fértil para proliferar”.
“Desvios, negociatas obscuras e a opacidade na gestão das receitas mancharam a legitimidade do sucesso económico e privaram o país de investimentos cruciais em áreas sociais”, acusou, realçando promessas não realizadas.
Angola vem de um meio século [de independência alcançada em 11 de novembro de 1975] “em que a bênção e a maldição dançaram uma valsa intrincada, onde o potencial de transformação radical conviveu com a realidade de distorções estruturais profundas”, indicou.
“Reconhecer esta complexidade é o primeiro passo para não repetir os erros”, observou, reafirmando que o petróleo “financiou a paz, mas também alimentou, indiretamente, o conflito. Foi e ainda é simultaneamente a bênção que nos construiu e a maldição que nos distorce”.
Sobre o presente, à luz do percurso dos 50 anos de independência, o líder da UNITA afirmou que a agenda global de descarbonização e a transição energética deixaram de ser debates académicos para se tornarem imperativos económicos e políticos concretos e defendeu a diversificação económica.
De acordo ainda com o presidente da UNITA, com a transição energética Angola está numa “encruzilhada” que é ao mesmo tempo a maior ameaça e a maior oportunidade para o país.