Angola converteu-se num dos raros palcos africanos onde os Estados Unidos da América aceitaram disputar, de forma aberta e direta, a influência geopolítica com a China. Esta rivalidade ficou vincada com a visita histórica do ex-presidente norte-americano Joe Biden ao país, em dezembro de 2024 — a primeira de um chefe de Estado dos EUA em exercício —, centrada no financiamento do Corredor de Lobito. Contudo, apesar dos esforços e do apoio continuado da administração de Donald Trump ao projeto ferroviário, Pequim deu um novo golpe de força na infraestrutura angolana, reforçando a sua hegemonia no Atlântico Sul.
A empresa Huatong Angola, subsidiária do grupo chinês Huatong, formalizou a assinatura de um acordo de 900 milhões de dólares (cerca de 830 milhões de euros) com a estatal Sociedade de Desenvolvimento da Barra do Dande (SDBD). O investimento destina-se à construção e concessão das novas instalações portuárias da Barra do Dande, localizadas na Zona Franca de Desenvolvimento Integrado, a cerca de 600 quilómetros a norte do Porto do Lobito e a curta distância de Luanda.
O projeto, focado na criação de um polo industrial, logístico e de exportação, compreende dois protocolos de 450 milhões de dólares cada: um dedicado às infraestruturas e outro relativo à concessão da gestão do terminal por um período de 25 anos.
Segundo Roque Saraiva, presidente do conselho de administração da SDBD, o financiamento é integralmente privado. A primeira fase do terminal portuário deverá estar operacional no prazo de dois anos. As fases subsequentes, com conclusão prevista até 2030, permitirão ao porto acolher navios até 80.000 toneladas, criar 21.000 postos de trabalho e gerar receitas anuais na ordem dos 10 mil milhões de dólares.
O contraste entre a estratégia de Washington e o pragmatismo de Pequim
A cartada chinesa na Barra do Dande expõe as limitações da abordagem norte-americana no continente. Até à data, a Development Finance Corporation (DFC) dos EUA mobilizou 553 milhões de dólares para impulsionar a Ferrovia Lobito-Atlântica, uma artéria crucial para escoar minérios críticos da República Democrática do Congo e da Zâmbia.
Se a administração Biden apresentou o investimento no Lobito sob o prisma da transição energética e do acesso a matérias-primas para baterias e veículos elétricos, o governo de Donald Trump reconfigurou a prioridade para uma disputa geoeconómica crua pelas cadeias de abastecimento globais.
“Isto reflete uma mudança da diplomacia focada no clima para uma abordagem geoeconómica mais rígida, centrada na integração do comércio regional e na competição entre grandes potências”, avalia Alex Vines, diretor do Programa para a África do Conselho Europeu de Relações Externas (ECFR).
No entanto, a resposta de Washington carece da capacidade de execução em grande escala no setor da engenharia pesada. Eric Olander, analista do China Global South Project, sublinha que os EUA não dispõem de empresas de construção capazes de operar com os custos reduzidos que caracterizam as empreitadas chinesas em África: “A política da administração norte-americana para África está focada essencialmente na segurança e na garantia do acesso a matérias-primas; nada mais. É improvável que haja qualquer resposta de Washington a este anúncio.”
Uma presença marítima e histórica enraizada
O novo terminal na Barra do Dande consolida o domínio marítimo chinês em nós estratégicos da costa angolana. Em 2022, um consórcio formado pelas estatais chinesas CITIC Construction e Shandong Port Group já havia vencido a concessão internacional para operar os terminais de contentores e carga geral do próprio Porto do Lobito por 20 anos — o rigoroso ponto de saída da ferrovia financiada pelos norte-americanos.
A ambição de certas esferas diplomáticas em Washington de afastar Angola da esfera de influência de Pequim esbarra na profundidade histórica das relações bilaterais. Embora os EUA tenham demorado quase duas décadas após a independência de Angola a reconhecer o governo do MPLA — tendo apoiado movimentos opositores durante a guerra civil —, a China estabeleceu laços diplomáticos formais com Luanda em 1983.
Sob a presidência de José Eduardo dos Santos, Pequim tornou-se o principal credor e parceiro na reconstrução das infraestruturas angolanas, muitas vezes através de linhas de crédito garantidas por petróleo. Com a chegada de João Lourenço ao poder em 2017, a parceria manteve-se sólida, evoluindo para uma "parceria estratégica abrangente de cooperação". Durante a sua visita à China em 2024, Lourenço priorizou a atração de investimento privado chinês para a indústria transformadora, agricultura e mineração, visando a diversificação económica do país.
Enquanto a Casa Branca tenta proteger os seus interesses em recursos críticos através de corredores específicos, a China continua a demonstrar uma capacidade incomparável de erguer infraestruturas de raiz, assegurando a sua posição de parceiro estrutural proeminente no Atlântico Sul.





