Valdir Cónego pede perdão a João Lourenço e espera regressar ao MPLA «pela porta da frente»

Post by: 20 Outubro, 2026

Militante reconhece excessos nas críticas ao líder do partido, manifesta disponibilidade para a reconciliação e considera que a decisão do Tribunal Constitucional abriu caminho à reapreciação do processo disciplinar que levou à sua expulsão. Na mesma entrevista, defende a legitimidade da candidatura de João Lourenço e sustenta que os estatutos poderão permitir a sua permanência na liderança até 2028.

O militante do MPLA Valdir Cónego pediu desculpas públicas ao Presidente da República e líder do partido, João Lourenço, à Primeira-Dama, Ana Dias Lourenço, aos filhos do casal e à direcção da formação política, reconhecendo que ultrapassou os limites na forma como conduziu o confronto com a liderança partidária.

Numa entrevista concedida ao jornalista Álvaro Mendes, no canal Bem Haja, o antigo membro do Comité Central afirmou estar preparado para uma reconciliação com João Lourenço e manifestou a intenção de regressar ao MPLA, depois de um período de afastamento marcado por críticas públicas ao presidente do partido e por um processo disciplinar que culminou na sua expulsão.

«Eu estou, sim, preparado para uma reconciliação com o Presidente João Lourenço e com o meu partido. Estou preparado, estou pronto», declarou.

O pedido de desculpas surge depois de o Tribunal Constitucional ter declarado inválido o relatório final do processo disciplinar instaurado contra Valdir Cónego, por violação do direito ao contraditório, determinando que o procedimento seja retomado na fase de apreciação da contestação apresentada pelo militante.

Cónego considerou a decisão um sinal de justiça e de respeito pelos princípios democráticos, mas reconheceu que, durante o conflito com a liderança do MPLA, recorreu a expressões ofensivas que hoje considera inadequadas.

«Eu falei muita verdade, sim, mas também fui muito ofensivo para o Presidente», admitiu.

Pedido de desculpas ao Presidente e à Primeira-Dama

Questionado por Álvaro Mendes sobre a possibilidade de pedir desculpas publicamente a João Lourenço e à Primeira-Dama, Valdir Cónego aproveitou a entrevista para dirigir um pedido de perdão ao casal presidencial, aos filhos e à restante família, estendendo-o à direcção do MPLA.

«Eu peço ao Presidente João Lourenço, à sua esposa, Primeira-Dama, aos seus filhos, peço desculpas públicas e perdão público», afirmou.

O militante justificou o gesto com uma reflexão pessoal sobre o seu comportamento e com os valores de educação e respeito pelos mais velhos que, segundo disse, recebeu da família. Na sua perspectiva, reconhecer os próprios erros não representa uma humilhação, mas uma demonstração de carácter.

«Só os fortes e os nobres reconhecem as falhas», declarou.

Cónego fez, contudo, uma distinção entre as críticas políticas que dirigiu ao partido e a forma como se expressou. Sustentou que as questões relacionadas com os estatutos, a democracia interna e a possibilidade de existirem várias candidaturas à liderança continuam a merecer discussão, mas reconheceu que o tom utilizado nas intervenções contra João Lourenço ultrapassou os limites que considera aceitáveis.

O militante afirmou que o período de silêncio lhe permitiu reflectir sobre o conflito e reconhecer que errou na maneira como se dirigiu ao líder do MPLA.

«Eu reconheço a minha falha. Eu errei ali», declarou.

«Ninguém me comprou», garante

A mudança de posição de Valdir Cónego, segundo relatou, gerou comentários nas redes sociais e em grupos de WhatsApp, onde alguns utilizadores terão sugerido que o militante foi comprado ou pressionado para se aproximar novamente de João Lourenço.

Cónego rejeitou essas interpretações e garantiu que ninguém o contactou em nome do Presidente da República para o convencer a alterar o seu posicionamento.

«Ninguém me comprou. O Presidente João Lourenço não mandou ninguém para me comprar», afirmou.

O militante revelou ainda que já tinha escrito duas cartas ao chefe de Estado, embora, segundo disse, não tenha recebido resposta.

Para justificar o pedido de desculpas, invocou razões de consciência e de coerência pessoal, argumentando que não poderia promover valores como a ética, a moral, a educação e o civismo sem reconhecer os próprios erros.

Cónego manifestou também o desejo de ser recebido por João Lourenço, de voltar a abraçar os dirigentes do partido e de retomar o convívio com os seus camaradas.

«Gostava muito que o Presidente pudesse receber-me e ultrapassar isso tudo», afirmou.

O militante revelou, entretanto, que está a preparar um novo projecto centrado na cidadania, no civismo e na ética, que pretende anunciar em breve.

Tribunal Constitucional invalida relatório disciplinar

A decisão do Tribunal Constitucional constitui outro dos pontos centrais da entrevista. O acórdão declarou inválido o relatório final do processo disciplinar que levou à expulsão de Valdir Cónego, por violação do direito ao contraditório, e determinou a retoma do procedimento na fase de apreciação da contestação apresentada.

O militante manifestou satisfação com a decisão, considerando que esta demonstra a imparcialidade dos juízes conselheiros e o respeito pelos direitos de defesa. Durante a entrevista, agradeceu aos magistrados do Tribunal Constitucional e à presidente da instituição, Laurinda Prazeres.

«É um sinal de que realmente a justiça foi feita», afirmou.

Cónego contestou igualmente os argumentos utilizados pela Comissão de Disciplina, Ética e Auditoria do MPLA para não permitir, segundo a sua versão, o acompanhamento do seu advogado durante a audiência disciplinar. Na sua perspectiva, o direito de defesa não deve ser limitado por exigências internas relacionadas com a filiação partidária do defensor.

Apesar de considerar que a decisão judicial lhe foi favorável nesta fase, o militante rejeitou a ideia de ter vencido definitivamente o conflito com a direcção do partido.

«Eu não ganhei nenhuma causa», declarou, atribuindo a evolução do processo à sua fé religiosa e manifestando esperança de regressar ao MPLA de forma digna.

O acórdão não representa, por si só, uma reintegração automática nem resolve necessariamente todos os aspectos do conflito. O seu alcance, conforme descrito na entrevista, consiste na invalidação do relatório final e na determinação de que o procedimento disciplinar seja retomado na fase indicada pelo Tribunal Constitucional.

Valdir Cónego afirmou acreditar que a direcção do partido cumprirá a decisão e que será convocado nos próximos dias para dar seguimento ao processo.

«Eu penso que a direcção do partido só tem que seguir a orientação do Tribunal», declarou.

João Lourenço é o candidato legítimo, defende

A entrevista abordou igualmente a preparação do próximo Congresso Ordinário do MPLA, previsto para Dezembro, e a disputa pela liderança da organização.

Valdir Cónego defendeu que João Lourenço deve ser tratado como candidato legítimo à presidência do partido, mas rejeitou a designação de candidato único, argumentando que outros pré-candidatos poderão avançar caso cumpram os requisitos estatutários e eleitorais.

Segundo a interpretação apresentada pelo militante, a candidatura de João Lourenço já foi validada pela subcomissão de candidaturas, enquanto outros nomes referidos na conversa, entre os quais António Venâncio e José Carlos de Almeida, ainda teriam de cumprir formalidades para que as respectivas candidaturas fossem aprovadas.

«Não é candidato único. É candidato legítimo», sublinhou.

Sobre o processo relacionado com o general Higino Carneiro, cuja candidatura foi rejeitada pelos órgãos competentes do partido, Cónego afirmou que, de acordo com a sua leitura, o Tribunal Constitucional deu razão à direcção do MPLA. Admitiu que poderiam existir outros caminhos jurídicos, mas evitou aprofundar os detalhes do processo.

As afirmações sobre a situação dos pré-candidatos e os efeitos das decisões judiciais correspondem à interpretação apresentada por Valdir Cónego durante a entrevista.

Militante sustenta que João Lourenço poderá permanecer até 2028

Um dos momentos mais controversos da conversa surgiu quando Valdir Cónego apresentou a sua interpretação dos estatutos do MPLA sobre a duração dos mandatos dos órgãos do partido.

Invocando alterações estatutárias que, segundo afirmou, foram aprovadas em 2024, o militante sustentou que a retirada de uma disposição relativa ao cumprimento do mandato dos membros substituídos poderá ter implicações no cálculo do tempo de liderança de João Lourenço.

Na sua leitura, o actual presidente do MPLA poderá permanecer na liderança até 2028, completando o período de dez anos desde que assumiu o cargo, em 2018.

«De acordo com essa alteração do estatuto, neste momento, o Presidente João Lourenço tem mais dois anos do seu mandato», afirmou.

Cónego defendeu que essa interpretação não impede a apresentação de outras candidaturas no Congresso Ordinário. Na sua perspectiva, caberia à direcção esclarecer os militantes sobre o alcance das disposições estatutárias, sem impedir a discussão interna sobre a sucessão.

A interpretação apresentada durante a entrevista não foi acompanhada de uma análise jurídica independente que permita confirmar o alcance das alterações estatutárias referidas.

Espera regressar ao partido «pela porta da frente»

Valdir Cónego afirmou que pretende continuar ligado ao MPLA, rejeitando a possibilidade de abandonar a organização apesar do conflito com a liderança.

O militante sustentou que chegou ao Comité Central por mérito próprio e pela sua ligação às bases do partido. Disse ainda que não pretende transformar a decisão do Tribunal Constitucional numa oportunidade para alimentar novas disputas internas, defendendo que o processo disciplinar siga os trâmites determinados pela instância judicial.

Descreveu o período posterior à expulsão como uma fase de sofrimento, tristeza e humilhação, marcada pelo afastamento de alguns camaradas e pelas críticas recebidas nas redes sociais. Apesar disso, afirmou ter permanecido fiel ao MPLA e disse ter sido abordado para integrar projectos de outras formações políticas.

O seu objectivo, garantiu, é recuperar o lugar na organização e restabelecer as relações com os dirigentes partidários.

«Eu só sei que Deus quer e eu oro para isso, para que no futuro próximo eu possa voltar ao partido, ao meu partido, pela porta da frente», declarou.

A entrevista deixa, assim, dois sinais políticos: o reconhecimento público dos excessos cometidos contra João Lourenço e a expectativa de que a decisão do Tribunal Constitucional permita reabrir o caminho para o regresso de Valdir Cónego ao MPLA. A concretização desse objectivo dependerá, contudo, dos procedimentos subsequentes do processo disciplinar, das decisões dos órgãos competentes do partido e da evolução da relação entre o militante e a actual liderança.

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