'Apagão' da Unitel vai desvalorizar empresa e refletir-se nas contas - analista

Post by: 29 Julho, 2026

O economista Carlos Rosado de Carvalho afirmou hoje que o ataque cibernético que atingiu a Unitel vai desvalorizar a operadora e acabará por se refletir nas suas contas, defendendo que devia ter sido suspensa a entrada em bolsa.

O analista disse à Lusa que a valorização de quase 25% na estreia da operadora na Bolsa de Dívida e Valores de Angola (BODIVA) foi inesperada, por contrariar aquilo que considerava ser o efeito lógico da falha na rede. "Não era de todo expectável esta evolução (...). Pelo contrário, eu achava que poderia haver uma descida da cotação", declarou.

Foi precisamente por antecipar uma queda que Carlos Rosado de Carvalho defendeu que a entrada em bolsa poderia ter sido suspensa, "justamente por causa de todo este apagão, que afeta e vai acabar por afetar o valor da empresa".

O economista sustentou que a Unitel já estava sobreavaliada em termos do preço da privatização, comparativamente a outras operadoras africanas cotadas.

Segundo os seus cálculos, o rácio entre a capitalização bolsista e o EBITDA - indicador de rentabilidade que mede os resultados antes de juros, impostos, depreciações e amortizações - situava-se em cerca de 12 vezes na Unitel, contra cerca de seis vezes na MTN Nigéria e cerca de sete na queniana Safaricom.

"Com o preço da privatização, comparando com a MTN nigeriana e com a Safaricom queniana, a Unitel já estava cara", afirmou, notando que a valorização em bolsa a torna "ainda mais cara".

Segundo os cálculos do economista, o preço de 40.000 kwanzas por ação significa que a Unitel está avaliada em cerca de dois biliões de kwanzas (cerca de 1,9 mil milhões de euros), um valor que subiu ainda mais com a valorização hoje das ações em bolsa.

Para o economista, o desempenho do título mostra que o mercado desvalorizou o impacto das falhas no serviço. "O mercado, a Bodiva, os investidores da Bodiva, ignoraram completamente o apagão da Unitel", considerou, prevendo, no entanto, que os efeitos se venham a fazer sentir nos resultados da empresa ainda este ano.

Carlos Rosado de Carvalho criticou também a cobertura mediática do apagão, sobretudo a dos órgãos públicos, que considerou terem-se limitado a reproduzir os comunicados da operadora e defendeu que uma comunicação social "normal" teria mostrado, através de reportagens, o impacto nas familias, nas empresas e na economia, em vez de "ignorar" o acontecimento.

O comentador antecipou ainda que o 'apagão' possa ter efeitos duradouros na quota de mercado da operadora, de quase 80%, empurrando clientes para a concorrência, dando o seu próprio exemplo, já que foi "obrigado" a comprar um 'chip' da Africell durante a falha, e admitiu ter ficado "mais curioso" em relação a essa operadora.

O economista considerou que empresas, bancos e famílias perceberam estar "excessivamente dependentes" da Unitel e que passarão a criar alternativas, com receio de voltarem a ser apanhados desprevenidos, ressalvando embora que "todas as empresas do mundo estão sujeitas a estes apagões".

A Unitel estreou-se hoje na Bodiva na sequência da privatização de 15% do capital, com as ações a valorizarem mais de 20% face ao preço da oferta, apesar de a operadora continuar sem rede há mais de um dia devido a um ataque informático.

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